segunda-feira, 12 de novembro de 2007

A própria voz é a que mais machuca

Sexta-feira, por ocasião de um evento, fui convidada a visitar uma base de aviação do Exército. Vimos toda a estrutura do lugar, a logística, o refeitório, o batalhão de manutenção, um hangar de helicópteros e o centro de ensino de pilotos e mecânicos (Aliás, o próprio Exército montou a estrutura de ensino dos pilotos, o que inclui um software desenvolvido pelos sargentos, que custaria mais de 400 mil reais se fosse encomendado em uma empresa civil. Senhores, contemplem: talvez o ÚNICO software NÃO pirateado do Brasil).

Como todo bom jovem, fiquei besta na frente de todo aquele maquinário voador de 740 cavalos que provavelmente eu nunca verei de novo. Você sabe né? Aquele lugar onde a parte pivete-de-onze-anos do seu cérebro sempre sonhou em estar. Tudo muito bem organizado, entiquetado e limpo.

O comandante nos levou a uma sala onde havia um simulador, baseado na tecnologia de um jogo da Microsoft, porém mais complexo, com um telão, dois monitores para imitar os relojinhos e dois controles de helicóptero adaptados ao computador. Tudo muito caseiro, porém extremamente bem feito, como é o hábito dos militares.

O sargento-professor perguntou se algum dos civis queria experimentar. Haha, veja se eu, uma apreciadora de jogos eletrônicos (mas não tão fã de simuladores de vôo, pois isso é jogo para meninos, eu prefiro os de ação), perderia uma chance dessas? Meu dedinho coçou, e, timidamente, mas energicamente, se levantou. O comandante me convidou à cadeira, eu me sentei, emocionada. Ele deu uma demonstração, explicou os comandos, eu bebia suas palavras.

Aquela base tinha em torno de 2.400 militares, se 100 deles tivessem sentado uma vez na vida onde eu estava, era muito. Civis como eu? Cof, cof.

Puxei a alavanca que parecia um freio de mão. O helicóptero na tela subiu, como eu planejava. Com os pedais eu o fazia girar no próprio eixo vertical, para esquerda ou para a direita. Confesso que manter essa estabilidade me foi uma tarefa dificultosa, pois os pedais estavam descalibrados. Pô-lo no ar e deixá-lo lá foi fácil. O difícil era mantê-lo equilibrado, através do joystick que eu controlava com minha mão direita. Achei o máximo conseguir pilotar aquele brinquedinho, principalmente porque estava na frente dos militares. Uma moça também experimentou antes de mim, mas ela foi muito mal mesmo, seja por inexperiência (que eu tamém tinha) ou falta de vontade ou até mesmo uma farda bem preenchida (que eu também via), fato é que, nas mãos dela, as pás da aeronave sempre chegavam antes no chão.

Comigo não foi assim, não. Eu não caí. Não perdi (muito) o controle. Só parecia um helicóptero meio bêbado, mas tudo bem. Fui pra lá, fui pra cá. Voei? Voei. Cheguei a algum lugar no cenário? Aí já é pedir muito, meu chapa. Mas, no fim, um major me elogiou, acho que estava só brincando, disse que eu levava jeito, que era a primeira vez que mexia e já conseguia muita coisa, conseguiu ir muito bem, parabéns, mulheres têm jeito com essas coisas, porque tem as mãos delicadas e precisas (engraçado, isso ele não falou na vez da moça), e blablablá. Mesmo assim, fiquei muito lisonjeada com o elogio. Muito mesmo. Se fosse uma cantada... com certeza seria melhor do que "Oi, você tem miopia ou astigmatismo?". Enfim, adorei aquilo mesmo, de coração e honra, encheu meu ego, e olha que raras vezes me sinto confortável quando elogiada.

Alguém não-lembro-quem-isso-não-importa, perguntou se mulheres poderiam ser pilotos. O comandante respondeu que não, que ainda não havia esse tipo de abertura, pelo mesmo motivo que não havia mulheres praças (os que se metem com a parte de combate mesmo), aquela velha discussão maçante que volta e meia sempre volta e não leva a nada. E o Quico? Pois é. Dane-se. Sabe, não me importo mais com essas coisas. Tá cheio de mulher lá dentro e é questão de alguns anos que elas consigam tudo o que querem. Isso não tem nada a ver comigo. Eu nunca quis me meter com forças armadas, não gosto de armas. Aliás, por motivos além dos habituais, quero distância desse meio. É legal? É legal para um deslumbrado de onze anos, mas não para uma vida. Aqueles homens e mulheres são muito corajosos. Mexer com a vida dos outros não é para qualquer um. Meu negócio ali foi brincadeira.

Cheguei em casa. Contei a história do simulador para todos, a mãe, a irmã, o gato e até o primo (que nunca me deixou usar o Comandos em Ação para dar carona para a Barbie, ela sempre tinha que andar a pé, porque só os brinquedos dele tinham carro, os meus não. Claro, até porque o carro da Barbie era mais caro por ser bem mais equipado do que um blindado de plástico), que ficou deliciosamente morrendo de inveja. À noite, resolvi contar tudo para o meu pai, que ficou admirado de tantas coisas novas que agora eu sabia. Até de motor eu aprendi bastante!

No fim de tudo, ele olhou para mim e perguntou:
- Por que você não presta concurso para a Aviação do Exército?

E eu respondi com a maior tranqüilidade do mundo:
- Ah, nem rola. Nem quero. E não posso, porque sou mulher.

Aí, fui fazer outra coisa qualquer. Trinta segundos depois, comecei a chorar, foi como se tivesse tomado uma facada no peito. Meu pai sempre gostou dessas coisas, talvez por isso tenha se tornado engenheiro. Tentou entrar na Aeronáutica quando moço, mas desistiu ao ser reprovado por ter 0,25 de miopia no olho esquerdo. Eu tenho 2,5 em cada olho, nunca passaria num troço desses, e mais do que isso, nunca tentaria, credo, fora de questão.

Então, por que me de repente fiquei tão mal? Que remorso era esse que eu sentia! Sentia até culpa por ser mulher, dar despesa pro País e não retribuir, olha que absurdo.

Acho que respondi isso por não querer admitir que era míope, fraca, sem cordenação, burra, ou qualquer outra coisa. Era mais fácil me desculpar pela falta de oportunidade do que pela falta de competência.

Pensando bem, nunca mais farei isso. É doloroso demais.

3 comentários:

Pedro Zambarda disse...

Acho que ser mulher não tem nada a ver com isso. É um preconceito bobo que os militares mantém, embora isso não seja exclusividade deles.

Bom, eu pensei em ser muita coisa. Mas tem uma larga distância entre mentalizar e tornar algo prático.

Pensar não faz mal. No entanto, jornalismo me satisfaz, no momento.

Pedro Zambarda disse...

Bom, bobo é uma palavra muito leviana.

O preconceito, o racismo e o machismo são marcas de sangue que infectam todos nós, homens.

E não há desculpa que apague tal vergonha.

Anônimo disse...

Nossa, muito bom o post! O exército está sendo uma ótima inspiração para você, quem diria.

Sei que não é o seu caso, seu sonho não é entrar no exército, mas as vezes sentimos até um certo alívio por acreditar que certa condição nos impede de realizar nossos sonhos, simplesmente porque mesmo que pudéssemos, teriamos medo de tentar e não conseguir. A crença na impossibilidade nos exime da culpa por não tentar.